Organização: Cristiane Grillo, Bianca Ferreira Rocha e Mateus Mourão
Editora UFMG
1 Edição – Janeiro/2022
Classificação: acima de 15 anos
Este livro, escrito durante a pandemia da COVID-19, é resultado de um esforço coletivo para registrar e refletir sobre nosso trabalho, seus impasses e invenções. Nele, uma direção ética da psicanálise de orientação lacaniana nos instiga a tomar o adolescente como o especialista de si mesmo e a apostar na tessitura de uma rede sob medida, engendrada por um trabalho constantemente construído a partir de cada caso. A articulação com as políticas públicas é fundamental para tornar o território, as cidades, mais permeáveis para os adolescentes e jovens. Aprendemos muito com eles, com as suas famílias e com os profissionais das diversas políticas que se entrelaçam em torno de cada caso.
A inter-disciplinaridade é imprescindível diante da complexidade dos casos. O hífen (apagado pela norma gramatical) marca o vazio, o coração pulsante, que a psicanálise cria e sustenta na interlocução com outros campos, como ensina Judith Miller. Cada texto com seu estilo e sua singularidade foi marcado pelo entusiasmo, engajamento e ética no trabalho com os adolescentes e jovens.
Apresentamos nesse livro o Janela da Escuta, o Arte na Espera e as tessituras com as redes vivas.
O Janela da Escuta é um laboratório de soluções forjadas pelos adolescentes, sendo as adolescências, sempre singulares, invenções possíveis. As metodologias são tecidas contínua e coletivamente, marcadas pela ética da psicanálise, que nos convida ao lugar de analisantes eternos, segundo uma expressão de Miquel Bassols.
O Arte na Espera é um projeto que se aloja no coração do Janela da Escuta. A arte nos instiga à criação, ao esforço de poesia de dizer o indizível. Nesse projeto, ateliês improvisados constituem-se a cada encontro e acolhem os adolescentes, os familiares, a equipe. A mesa de Thereza, posta no interior do ambulatório ou na rua, convida-nos para o café, para a conversação. Uma mesa que acolhe a toalha bordada no projeto e as inúmeras xícaras, diferentes umas das outras. A cada encontro, a toalha, sem bainha, sem acabamento, estende-se sobre uma maca, como um convite para as inscrições singulares: corações, números de telefone, nomes, desenhos, frases. O bordado coletivo encarna a metodologia do Janela da Escuta como lugar de um não saber, de um saber fazer, lugar onde cada um pode alojar-se. Só não há espaço para o especialista, portador de um saber prévio a ser imposto ao outro. O Janela da Escuta e o Arte na Espera são projetos ancorados na UFMG e na UEMG, universidades públicas, gratuitas, potentes!
Seguimos o livro com o acompanhamento de saúde do adolescente, que nos guia nesse percurso. Há algo de uma clínica do excesso, expressão utilizada pelo nosso querido amigo Domenico Cosenza. Um excesso que também se localiza nos profissionais, na tecnociência, como nos adverte Philippe Lacadée, no seu texto sobre a medicalização das crianças e adolescentes.
Dedicamos uma seção ao sexual, indizível, mas contornado com palavras, com poesia. Convidamos a equipe e parceiros das redes de saúde, assistência social, socioeducação, cultura, para falar das redes vivas, tecidas sob medida, em torno de cada caso. Dedicamos um lugar à rede de educação, com seu desafio de alojar o saber do jovem.
Há uma seção sobre o racismo, sobre o genocídio dos jovens negros, mas também sobre a potência dessas juventudes, sobre a criação de um memorial para o luto, para a luta, para a vida. O livro termina com uma reflexão sobre nosso trabalho na pandemia, em construção.
Convidamos cada um dos leitores a seguir conosco, nessa tessitura de vida, seja onde for.
“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação, porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.”
(Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa)
Dia 24 de junho de 2022, o livro Janela da Escuta: o adolescente especialista de si e a tessitura de uma rede sob medida foi lançado no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da UFMG e contou com uma conversação com os autores.